O livro de orações de Israel começa com uma palavra que ninguém espera encontrar ali.
Onde a Almeida Corrigida Fiel diz “Bem-aventurado o homem”, a Nova Versão Internacional traz “Como é feliz aquele”, e a Nova Versão Transformadora, “Feliz é aquele”. As três traduzem o mesmo termo hebraico.
Cento e cinquenta salmos de lamento, súplica, guerra e louvor, e o primeiro deles abre com felicidade.
“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.” Salmos 1:1-2
Este salmo é o pórtico
Quem organizou o Saltério colocou este texto na entrada de propósito.1
Ele anuncia os dois temas que voltarão ao longo do livro inteiro: o caminho da bênção e o caminho do julgamento. E ecoa coisas que o leitor já conhecia — gente caminhando com Deus, o rio que dá vida, a árvore e o fruto, tudo isso já estava em Gênesis.1
São dois caminhos, e Israel foi mandado escolher um deles ainda em Deuteronômio 30:19. Jesus retomaria a mesma imagem no Sermão do Monte, com a porta larga e a porta estreita (Mateus 7:13-14).
Andar, parar, sentar-se
Repare no movimento do primeiro versículo: anda, detém-se, assenta-se. A descida é lenta.
Ninguém chega direto à cadeira. Passa perto, para um pouco, e um dia já está sentado — e a cadeira, a essa altura, parece o lugar mais natural do mundo.
As três companhias também são distintas, e o salmo não as trata como sinônimos:2
- Ímpios são os deliberada e persistentemente perversos
- Pecadores são os que erram o alvo de Deus e não se importam com isso
- Escarnecedores são os que fazem pouco da lei de Deus e ridicularizam o que é sagrado.
O salmo trata a terceira companhia como o fim da linha. Quando rir do sagrado vira entretenimento, o fundo do poço já foi alcançado.2
“Meditar” é falar em voz baixa
O versículo 2 é o contraponto, e o verbo que ele usa costuma ser mal-entendido.
Meditar, no hebraico, é dizer em voz baixa e suave.2 É o que um judeu ortodoxo faz ao ler as Escrituras: murmura o texto enquanto lê, e o texto passa pela boca antes de passar pela cabeça.
A imagem popular de meditação é silêncio e olhos fechados. A bíblica é o contrário: alguém falando sozinho com a Palavra na boca.
E prazer vem antes de meditação, na ordem do versículo. Pensamos naquilo que nos dá prazer, e buscamos aquilo em que pensamos.2
A árvore não nasceu ali
O versículo seguinte fecha a imagem: “Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo” (Salmos 1:3).
Plantada. O verbo é passivo. Aquela árvore não brotou por acaso à beira da água — alguém a pôs ali.
E o fruto vem “no seu tempo”, não o ano todo. Até a árvore bem plantada tem estação de aparente inatividade, em que só as raízes trabalham.
Quem lê o Salmo 1 esperando produtividade constante lê errado. O que o texto promete é permanência: as folhas não caem, e o lugar é bom.
E você? Onde tem sido a sua raiz — na água corrente, ou na roda em que já se sentou sem perceber?
Fique na paz!
Fontes
- WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. III — Poético. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 87.
- WIERSBE, Comentário Bíblico Expositivo, vol. III, p. 88.