Devocional do Salmo 91:1 — O Salmo dos Dois Endereços

Poucos salmos são tão conhecidos quanto o 91. Ele aparece na oração de quem vai viajar, na mensagem enviada a quem está no hospital, no quadro pendurado na parede da sala.

E é justamente por ser tão usado que ele é tão mal lido.

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.” Salmos 91:1

Duas moradas na mesma frase

O salmo trabalha com dois endereços, e eles aparecem lado a lado.

Um é a tenda: “Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda” (Salmos 91:10). O outro é o próprio Deus: “Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação” (Salmos 91:9).

Quem escreveu morava nos dois lugares ao mesmo tempo.1 Tinha um endereço de barro, sujeito a praga e a vento, e um endereço que nenhuma circunstância alcança.

Repare nos verbos do versículo 1: habitar e descansar. Nenhum dos dois é de emergência. Descrevem alguém que já mora ali antes de a crise chegar.

O que o salmo não está prometendo

Aqui é preciso dizer uma coisa com cuidado, porque muita gente carrega esse texto no bolso como amuleto.

O próprio Novo Testamento fecha essa porta. Depois de listar os heróis da fé que escaparam de leões e de fogueiras, Hebreus muda o tom: “E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões” (Hebreus 11:36).

Os que foram torturados tinham a mesma fé dos que foram livrados.1 Moisés, Davi e Paulo enfrentaram perigos reais fazendo a vontade de Deus, e o Senhor os livrou. O livro dos mártires se escreveu com a mesma fé, e terminou de outro jeito.

Então o abrigo do Salmo 91 é a promessa de um lugar onde se mora enquanto o perigo passa — e não a de um perigo que nunca chega.

O único salmo que o diabo cita

Há um detalhe pouco lembrado neste capítulo, e ele resolve a questão do amuleto de uma vez.

Quando Jesus foi tentado no deserto, Satanás citou este salmo: “porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos, para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra” (Mateus 4:6, citando Salmos 91:11-12).

A proposta era saltar do alto do templo e obrigar a promessa a se cumprir. Jesus respondeu com Deuteronômio 6:16 e recusou.

A diferença entre fé e presunção está exatamente aí.1 Se o Pai tivesse mandado saltar, os anjos teriam sustentado. Saltar sem ordem seria arrogância vestida de confiança — o texto usado para forçar a mão de Deus, e não para descansar nele.

Vale guardar isso: um versículo verdadeiro, citado fora do lugar, vira armadilha. Quem demonstrou o método foi o próprio inimigo.

A promessa que o salmo faz de fato

Chegando ao fim, Deus fala em primeira pessoa e diz o que fará: “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” (Salmos 91:15).

Leia devagar a parte do meio. Estarei com ele na angústia. Não “em lugar da angústia”. Dentro dela.

A ordem da frase é essa: primeiro a companhia, depois a saída. Quem espera só a segunda parte perde a primeira, que é a que sustenta enquanto a outra não vem.

Quem procura o Salmo 91 quase sempre está procurando a tenda protegida. O salmo oferece mais do que isso: oferece o segundo endereço, aquele em que se mora antes, durante e depois do que quer que aconteça.

Fique na paz!

Fontes

  • WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento, vol. III — Poético. Trad. Susana E. Klassen. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006, p. 244-245.

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