A Natureza do Homem – Dicotomia e Tricotomia

A Bíblia nos apresenta uma série de doutrinas, algumas mais claras que outras. Existem doutrinas estruturais no cristianismo, aquilo que conhecemos como ortodoxia, por exemplo: a Trindade, as duas naturezas de Cristo, pecado, salvação, a Igreja e assim por diante.

Hoje vamos falar sobre um tema relacionado à criação do homem e como as Escrituras nos apresentam a estrutura ou características que nos fazem ser quem somos, ou seja, seres humanos.

A Criação do Homem

Versículo Central: Gn 1:27

O Dr. Strong em sua Sistemática (Volume 2, pág. 837, Parte V, Cap. I):

As Escrituras, por um lado, negam a ideia de que o homem é um simples produto das forças naturais irracionais. Elas ligam a sua existência a uma causa distinta da simples natureza, a saber, um ato criativo de Deus.

A Criação Especial do Homem

A diferença fundamental da criação do homem em relação aos outros seres vivos é que Deus “soprou nas narinas do homem o fôlego de vida”.

Textos Base

Referências: Gn 1:26-30; Gn 2:7; Gn 2:18,21-22; Gn 46:26 (Almas = Vidas)

No livro de Gênesis, capítulo 1, versículos 26 a 30, temos um resumo sobre a criação do homem, dos animais e das plantas. Deus já fala no versículo 30 sobre um termo interessante: “alma vivente” (nephesh chayyah em hebraico). Esse termo nos apresenta algo intimamente relacionado a tudo que possui vida animal.

Ou seja, o homem e os animais são descritos como “alma vivente”. As plantas, embora tenham vida biológica (chayyah), não recebem a designação nephesh. Esta é a primeira vez que a palavra “alma” aparece na Bíblia, e aparece justamente estabelecendo essa associação entre alma e vida nos seres animados.

Em Gênesis 2:7, temos a definição direta e exclusiva sobre a criação do homem: Deus formou o homem do pó da terra, soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem foi feito alma vivente.

A mesma descrição, o mesmo termo “alma vivente” usado anteriormente para os animais da terra, as aves do céu e os répteis, agora é aplicado também ao homem.

No entanto, existe uma grande diferença. Como vimos em Gênesis 1:26, o aspecto da criação do homem envolve outro elemento fundamental: a imagem de Deus.

O homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, e essa criação envolvia mais do que ser uma alma vivente. Deus estava delegando ao homem autoridade sobre os peixes do mar, as aves do céu, o gado e sobre toda a terra.

Tudo que tivesse vida animal na terra, o homem havia recebido de Deus a incumbência de dominar. A partir desse momento, já começamos a ver um diferencial na questão da vida, na alma do homem.

Vemos características que trataremos adiante: como o homem pode liderar, gerenciar, organizar e dominar. O que ele precisa para executar essas funções?

A Criação da Mulher

Texto Base: Gn 2:18,21-22

Nos versículos anteriores, comentamos sobre a alma vivente dos animais e do homem. Agora, em Gênesis 2:18, temos a criação da mulher, onde Deus identifica que não é bom que o homem esteja só e que precisa de uma companheira adequada. Nos versículos 21 e 22, o texto narra que Deus formou a mulher a partir da costela do homem.

Diferentemente da criação inicial do homem, o texto não narra que Deus soprou nas narinas da mulher. A vida, esse fôlego que Deus já havia colocado no homem, parece ter sido transmitida na própria formação de Eva.

Ou seja, essa alma, essa vida ou espírito já se formou juntamente com o corpo da mulher a partir do homem. Este aspecto nos leva à discussão sobre a origem da alma: ela vem antes da formação do corpo? Surge na concepção? Em que momento se dá a união entre corpo e alma?

Nota: Este relato da criação de Eva tem sido usado por defensores do traducianismo (que veremos adiante) para argumentar que a alma pode ser transmitida dos pais aos filhos, assim como Eva recebeu sua natureza completa derivada de Adão, sem um segundo “sopro” divino específico.

Dicotomia

Definição

A dicotomia é a concepção que afirma que a natureza humana possui duas partes distintas: corpo (material) e alma (imaterial).

A visão dicotomista defende que o homem tem essas duas essências: a parte física e a parte espiritual (outro termo que se alterna com “alma”). Existe alternância dos termos na Bíblia: alma e espírito referem-se ao mesmo aspecto imaterial do ser humano.

Parte do Ser Termo Grego Tradução Função Principal
Corpo σῶμα (sôma) Corpo físico Relação com o Mundo Material
Alma/Espírito ψυχή (psychḗ) / πνεῦμα (pneûma) Alma/Espírito Consciência, Emoções, Vontade, Intelecto e Relacionamento com Deus

Fundamento Bíblico

Quem se debruça nos textos bíblicos, desde Gênesis, naturalmente chegará à conclusão dicotômica de forma indutiva e sistemática.

Por quê? Porque Gênesis descreve que Deus formou o homem do pó da terra (elemento físico) e soprou em suas narinas (surgindo o elemento imaterial), fazendo com que o homem se tornasse alma vivente.

Portanto, por este texto apenas, temos a parte física (corpo) e a parte espiritual/imaterial (alma).

Textos Bíblicos Relacionados à Dicotomia

Primeiro Grupo – O Sopro de Deus e a Formação do Homem:

  • Gn 2:7 – “Deus soprou o fôlego de vida e o homem foi feito alma vivente”;
  • Jó 27:3 – “Enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus em meu nariz”;
  • Jó 32:8 – “Há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido”;
  • Jó 33:4 – “O Espírito de Deus me fez, e a inspiração do Todo-Poderoso me deu vida”.

Segundo Grupo – Deus como Criador do Espírito Humano:

  • Nm 16:22 – “Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a carne”;
  • Zc 12:1 – “O Senhor que forma o espírito do homem dentro dele”;
  • 1Co 2:11 – “O espírito do homem que nele está”;
  • Hb 12:9 – “Ao Pai dos espíritos”.

Terceiro Grupo – Alma/Espírito e a Morte:

  • Gn 35:18 – “Aconteceu que, saindo-lhe a alma (porque morreu)”;
  • 1Rs 17:21 – “Ó Senhor, meu Deus, rogo-te que a alma deste menino torne a entrar nele”;
  • Ec 12:7 – “O pó volte à terra, como era, e o espírito volte a Deus, que o deu”;
  • Tg 2:26 – “O corpo sem espírito está morto”.

Esses grupos de passagens demonstram o processo criativo de Deus em relação ao corpo e à alma, servindo também como base para refutar conceitos como panteísmo e materialismo.

Refutação de Conceitos Não-Bíblicos

Panteísmo e Materialismo

Quando olhamos para essas passagens, conseguimos refutar dois termos bem comuns e presentes na cultura: o panteísmo e o materialismo.

O panteísmo trata de questões e enxerga o mundo de forma totalmente mística e espiritual, não levando em conta a dimensão física e material.

Baseia-se em conceitos de que Deus está em tudo e em todos, permeando a natureza e todas as coisas. Deus estaria na árvore, na água, no fogo, no ser humano, enfim, permeando todas as coisas.

A Bíblia não apresenta isso. Na verdade, a Bíblia apresenta Deus como um ser pessoal que está fora do tempo e do espaço. Ele não tem limite, mas ao mesmo tempo este Deus criou todas as coisas: criou o tempo, o espaço, o homem e a matéria.

O materialismo, por outro lado, afirma que tudo que existe é físico. Não existem dimensões espirituais, alma ou transcendência. Tudo seria matéria, sistemas, impulsos elétricos, processos físicos. Acabando a questão material, o físico, não aconteceria mais nada.

A própria criação do homem, a própria definição bíblica do homem já rebate esses dois pensamentos que ainda existem há muito tempo.

Intercâmbio entre Alma e Espírito

Textos que mostram a permuta ou intercâmbio entre os termos “alma” e “espírito”:

  • Gn 41:8 – “Perturbou-se o seu espírito”;
  • Sl 42:6 – “Dentro de mim a minha alma está abatida”;
  • Jo 12:27 – “Agora minha alma está perturbada”;
  • Jo 13:21 – “Perturbou-se em espírito”;
  • Mt 20:28 – “Dar a sua vida em resgate de muitos”;
  • Mt 27:50 – “Entregou o espírito”;
  • Hb 12:23 – “Aos espíritos dos justos aperfeiçoados”;
  • Ap 6:9 – “Vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da Palavra de Deus”.

A questão fundamental é que, biblicamente falando, existe a referência do corpo e da alma ou espírito. Esses dois elementos formam o homem. O homem é integralmente formado por corpo e alma/espírito.

Unidade do Ser Humano

Referências sobre a unidade corpo-alma:

  • Mt 10:28 – “Temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”;
  • 1Co 5:3 – “Ausente no corpo, mas presente no espírito”;
  • 3Jo 2 – “Desejo que te vá bem e que tenhas saúde, assim como vai bem a tua alma”.

Base Bíblica Adicional – Salmo 42

Sl 42:1-2,4-6,8,11 – Uso do termo ALMA

Este salmo exemplifica o uso intercambiável de “alma” e “espírito” para descrever o aspecto imaterial do homem, suas emoções, pensamentos e relacionamento com Deus.

Tricotomia

Definição

A concepção da tricotomia defende que o homem é constituído por três elementos essenciais: corpo, alma e espírito.

Argumentos Tricotomistas

Distinção entre Alma e Espírito

Essa visão difere da dicotomia no que tange a questão imaterial do homem. Tanto a dicotomia quanto a tricotomia compartilham o pressuposto de que o homem possui essência física e espiritual (material e imaterial, tangível e intangível).

A diferença fundamental se dá na parte imaterial, onde é apresentado que essa parte teria uma subdivisão.

Alguns cometem o erro de fazer analogias inadequadas entre a Trindade e a tricotomia humana. Essa comparação é rejeitada por tricotomistas ortodoxos, pois:

  • Na Trindade: três pessoas (Pai, Filho, Espírito Santo), uma essência divina;
  • Na tricotomia humana: uma pessoa, três aspectos/essências (corpo, alma, espírito).
Parte do Ser Termo Grego Tradução Função Principal
Corpo σῶμα (sôma) Corpo físico Relação com o Mundo Material
Alma ψυχή (psychḗ) Alma Emoções, Vontade e Intelecto
Espírito πνεῦμα (pneûma) Espírito Relacionamento com Deus

Fundamento na Criação

Voltando para Gn 2:7, Deus formou o corpo do pó da terra, e a partir do sopro divino (ruach em hebraico, relacionado ao espírito), o homem se tornou alma vivente.

Esse sopro que Deus colocou nas narinas do homem fez com que ele se tornasse uma alma vivente. Portanto, temos o corpo, o espírito (sopro divino) e a alma (resultado da união dos dois).

Diferença entre Homem e Animais

Além da criação à imagem de Deus, existe uma distinção fundamental na estrutura do ser. Em Gênesis, o termo “alma vivente” (nephesh chayyah) é usado tanto para animais quanto para o homem.

No entanto, os tricotomistas argumentam que, embora animais tenham vida biológica (alma no sentido de vida), apenas o homem possui espírito.

O homem foi criado de forma especial: Deus formou seu corpo, soprou o fôlego de vida (espírito), e ele se tornou alma vivente. Essa alma do homem, através do espírito, é qualitativamente distinta. O homem possui:

  • Corpo: para interagir com o mundo material;
  • Alma: consciência, emoções, vontade, intelecto, personalidade;
  • Espírito: capacidade de relacionar-se com Deus, consciência espiritual.

Os animais possuem vida biológica e instintos, mas não têm:

  • Consciência de Deus;
  • Capacidade de Oração;
  • Raciocínio Moral e Planejamento Complexo;
  • Linguagem Articulada e Abstração;
  • Autoridade Delegada Sobre a Criação.

Existe uma diferença fundamental na criação do homem em relação aos outros seres vivos. Essa visão da alma e do espírito em conjunto com o corpo faz do homem um ser totalmente diferenciado.

Intercâmbio dos Termos

Os dicotomistas apontam o intercâmbio entre alma e espírito nas Escrituras. No entanto, os tricotomistas respondem que também existe intercâmbio entre alma e corpo, pois textos usam “alma” para designar a pessoa completa ou sua existência.

Por exemplo, Gn 46:26 fala que “desceram setenta almas para o Egito”, ou seja, setenta pessoas. Existe um intercâmbio da própria existência da pessoa (corpo, alma e espírito) com o termo “alma”. Nas Escrituras, esse uso amplo também é apresentado.

O Espírito Humano

Outra distinção apresentada é que o espírito, dado por Deus e que habita no corpo formado por Ele, faz parte da natureza humana. Segundo Sl 51:10, esse espírito pode ser renovado por Deus. O homem precisa nascer de novo, e esse nascimento se dá usando a figura do espírito.

Carnal Versus Espiritual

Quando a Bíblia fala de pessoa “carnal” ou “espiritual”, não está necessariamente culpando o corpo. “Carnal” refere-se à tendência de agradar a natureza pecaminosa (após a queda). “Espiritual” refere-se à pessoa restaurada e regenerada por Deus.

A vida, a alma e o espírito da pessoa regenerada não estão mais em escravidão ao pecado. Ela agora consegue reagir e, apesar de ainda ser pecadora, está renovada em espírito para responder a Deus, buscá-Lo, orar a Ele. Foi vivificada no espírito.

Textos Principais da Tricotomia

  • 1Ts 5:23 – “O mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis”;
  • Hb 4:12 – “A palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito”;
  • Lc 1:46-47 – “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”.

Objeções Dicotomistas

Preocupação com Influências Filosóficas

A principal preocupação dos dicotomistas, conforme vemos no livro de Catecúmenos e nas obras do teólogo Berkhof comentadas pelo reverendo Carlos Ribeiro Caldas Filho, é com a construção filosófica apresentada pela tricotomia.

Os dicotomistas temem que a tricotomia abra portas para:

  • Conceitos gnósticos sobre hierarquia de substâncias;
  • Panteísmo e suas implicações;
  • Visões dualistas que depreciam o corpo.

Resposta aos Textos Tricotomistas

Os dicotomistas argumentam que:

  1. O intercâmbio entre alma e espírito nas Escrituras demonstra que são termos sinônimos para o aspecto imaterial;
  2. 1Ts 5:23 seria uma linguagem abrangente (totalidade do ser), não necessariamente três partes distintas;
  3. Hb 4:12 usa figura de linguagem para enfatizar o poder penetrante da Palavra, não indica divisão ontológica.

Origem da Alma

Existem três teorias relacionadas à origem da alma: a teoria pré-existencialista (ou teoria da pré-existência), a teoria criacionista e a teoria traducianista.

Pré-Existencialismo

Definição

A teoria da pré-existência defende que a alma já existia antes mesmo do nascimento humano. A consciência, a identidade, a memória e tudo que consiste nessa composição imaterial do ser humano já existiam antes do nascimento e da criação do próprio corpo humano.

Problemas com o Pré-Existencialismo

1. Ausência de Memória:

Se assumirmos que consciência, identidade, pensamentos e memórias estão associados à alma, surgem questões sobre lembrar de situações antes do nascimento. Onde você estava? O que você fazia? O que você pensava? Você era um ser humano completo ou incompleto?

A Bíblia apresenta o humano como sendo composto de corpo e alma/espírito. Quem é você? Você é seu corpo? Sua alma? Ou existe uma dissociação?

Pensando no caso de Cristo: Ele sempre foi Deus, sempre existiu, é eterno, pré-existente à sua natureza humana. Jesus existia antes de se tornar homem, antes de adquirir a natureza humana.

A Bíblia apresenta que Ele mantém memórias da sua pré-existência divina (Jo 17:5). Portanto, seria natural que, se nossa alma pré-existisse, lembrássemos de algo anterior ao nosso nascimento.

Assim como temos memórias da adolescência e da infância, e quando formos mais velhos teremos lembranças de hoje, seria natural pensar que, se existíssemos como alma antes de estar num corpo, lembraríamos de certas coisas. Mas isso não acontece.

2. Implicações Relacionadas ao Pecado:

A Bíblia defende em Rm 5 que todos pecaram em Adão. Quando Adão pecou, ele já estava completo – corpo e alma/espírito. A obra de Deus no homem é corpo e alma. Portanto, ele pecou como humano completo, criado à imagem de Deus.

Como podem outras almas que não tinham corpo ter pecado junto com Adão? Esse é um questionamento sério a respeito do pré-existencialismo.

3. Abertura para Outras Religiões:

Quando tentamos defender essa teoria pré-existencialista, acabamos saindo da Bíblia e esbarrando em outras situações, como:

  • Panteísmo;
  • Reencarnação;
  • Transmigração de Almas entre Diferentes Vidas.

Essas ideias fogem totalmente do relato bíblico e envolvem questões sobre pecado, vida, responsabilidade humana e criação de Deus que não têm amparo escriturístico.

Conclusão Sobre Pré-Existencialismo

Essa visão pré-existencialista não é comumente aceita no meio cristão ortodoxo. Embora já tenha existido e alguns círculos a defendam, ela não tem amparo bíblico adequado.

Criacionismo

Definição

A teoria criacionista parte de uma divisão específica entre as características do corpo e da alma, alinhando-se principalmente com a tricotomia.

Na geração de novos humanos a partir da concepção, o pai e a mãe transmitem as características físicas (o corpo, a vida biológica), enquanto Deus instantaneamente cria o espírito para esse corpo.

As características físicas vêm da procriação e reprodução, enquanto a parte imaterial vem diretamente de Deus. Seria algo análogo à criação de Adão: em vez de Deus formar um corpo do pó da terra, haveria a união do homem com a mulher (transmissão do DNA), e Deus “sopraria” esse espírito neste corpo, formando essa alma ou espírito novo.

Passagens que Aparentemente Apoiam o Criacionismo

  • Ec 12:7 – “O espírito volta a Deus que o deu”;
  • Is 57:16 – “As almas que eu fiz”;
  • Zc 12:1 – “O Senhor que forma o espírito do homem dentro dele”;
  • Hb 12:9 – “Pai dos espíritos”;
  • Sl 139:13-14 – “Tu formaste o meu interior, tu me teceste no ventre de minha mãe. Graças te dou, visto que de modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis”;
  • Jr 1:5 – “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci”.

Problemas com o Criacionismo

1. Interpretação das Passagens:

Essas passagens estão mais relacionadas à forma como Deus interage e age através dos processos naturais que Ele mesmo estabeleceu.

Uma vez que Deus determinou que o homem e a mulher se multiplicassem, e ambos já estão completos com corpo, alma e espírito, eles foram criados por Deus e habilitados para reproduzir e multiplicar conforme o mandamento divino.

O ser humano já estaria habilitado por Deus para gerar vida completa (corpo e alma/espírito) através da reprodução.

As passagens falam de um processo de como Deus conhece o humano e de que Deus é o Criador do ser humano, mas não necessariamente indicam um processo duplo (corpo pelos pais, espírito por Deus).

2. Hereditariedade de Características:

Observamos que os filhos herdam não apenas características físicas dos pais, mas também características comportamentais, temperamentais e de personalidade.

Uma criança pode replicar comportamentos similares ou idênticos aos do pai ou da mãe, mesmo sem ter conhecido um deles.

Essa hereditariedade tanto genética quanto comportamental traz complexidade à teoria criacionista. Como explicar a transmissão de traços de personalidade, temperamento e tendências comportamentais se apenas o corpo é transmitido pelos pais?

3. Problema do Pecado:

Este é o maior problema da teoria criacionista. Uma vez que os seres humanos caíram e são pecaminosos diante de Deus, não teria lógica pensar que o pai e a mãe produzem o corpo de um ser humano corrupto (pois o corpo também foi afetado pela queda), e então Deus produziria uma alma ou espírito puro para colocar dentro desse corpo corrupto.

A doutrina reformada da depravação total é clara: o corpo foi afetado, a alma, o pensamento, o raciocínio – tudo foi afetado pela queda.

Pensar que Deus produziria uma alma/espírito puro para colocar em um corpo corrupto levantaria a acusação de que Deus seria o autor do mal moral. Isso cria uma inconsistência teológica séria.

A alma, o espírito e o corpo do homem são corruptos após a queda. Naturalmente, o homem e a mulher, a humanidade, replicarão essa condição. A Bíblia não defende que nascemos com espíritos puros em corpos corruptos.

4. Distinção de Pecado Pessoal e Pecado Original:

É importante distinguir: não estamos falando de pecados específicos dos pais sendo transmitidos aos filhos, nem de maldições hereditárias como alguns ensinam erroneamente. Estamos falando do pecado original e da natureza pecaminosa.

A partir da queda, Adão e Eva (representantes da humanidade) se tornaram pecadores. Portanto, tudo que procede deles será pecador.

Quando alguém nasce, seu corpo já é corrupto, seu espírito e alma também são corruptos. Deus não colocaria uma alma pura e santa em um corpo corrupto.

O homem, como o conhecemos biblicamente, é completo em sua totalidade: corpo, alma e espírito. Todos esses aspectos foram afetados pela queda.

Conclusão sobre Criacionismo

Apesar de trazer interpretações que confrontam a teoria da pré-existência e fazerem mais sentido em alguns aspectos, o criacionismo também não se sustenta biblicamente, principalmente na questão do mal e do pecado original.

Embora muitos reformados tenham defendido esse ensinamento por muito tempo, quando esbarramos no problema do pecado, temos uma dificuldade teológica significativa.

Traducianismo

Definição

A teoria traducianista, proposta por Tertuliano e com apoio implícito de Agostinho, defende que a raça humana foi criada por Deus através de Adão.

Nessa formação inicial (corpo de Adão e posteriormente Eva a partir de Adão), e através da reprodução entre Adão e Eva, a criação de Deus e a designação divina na multiplicação habilitam o homem e a mulher para agir nessa propagação e geração natural.

Quando surge um novo corpo através da reprodução, juntamente com o corpo já vem a alma/espírito. Deus não precisa necessariamente colocar uma alma ou espírito em cada corpo que é formado.

O homem e a mulher têm corpo e alma/espírito; quando se unem e têm um filho, esse filho já possui corpo e alma/espírito juntos. Essas são regras estabelecidas por Deus nos processos naturais de reprodução.

Fundamento em Adão como Representante

Como em Adão todos pecaram, falamos de Adão como representante da humanidade. Eva veio de Adão, e de Adão e Eva vieram todos os outros seres humanos.

Naturalmente, falamos que Adão pecou, porque, embora Eva tenha primeiramente desobedecido a Deus, tomado do fruto e comido, ela procedia de Adão. Quando o próprio Adão transgrediu, a humanidade inteira transgrediu em Adão.

Propagação da Natureza Completa

A questão dessa propagação vai além do corpo. A propagação da característica, da essência do homem, daquilo de que ele é feito, se propaga completamente. Um homem e uma mulher pecadores produzirão pessoas pecadoras.

Os traducianistas tratam o homem como uma raça, não como um grupo de indivíduos desconectados. O efeito que ocorreu na raça se propaga para todos os descendentes. Tanto a questão física quanto a imaterial do homem vão passando para cada ser humano gerado individualmente.

Essa substância, aquilo que nossos pais têm, também compartilhamos. Obviamente, cada pessoa que nasce tem suas próprias características particulares – herda coisas do pai e da mãe, mas Deus, ao criar, definiu que haveria variações de uma geração para outra.

Além de herdarmos características materiais e imateriais, também temos nossas próprias decisões, memórias e experiências de vida.

Você não é uma cópia exata do pai ou da mãe (embora façamos essa brincadeira), mas é alguém que tem características herdadas de ambos.

Apoio Bíblico

Hb 7:10 – “Levi ainda estava nos lombos de seu pai quando Melquisedeque saiu ao encontro de Abraão”

Este versículo fala da ancestralidade de Levi em Abraão. Através de Abraão, a quem Deus abençoou, vieram Isaque, depois Jacó (que se tornou Israel), e as doze tribos.

O texto de Hebreus fala dessa questão da ancestralidade: mesmo antes de ter nascido, como Levi é descendente de Abraão, ele herdou essa herança da bênção de Abraão através dele.

Essa característica do traducianismo representa essa situação de que cada pessoa herda algo dos seus pais – não apenas características físicas, mas também aspectos da natureza humana completa.

Distinção entre Pecado Original e Pecados Pessoais

Como mencionado anteriormente, não estamos defendendo uma “maldição hereditária” no sentido de pecados específicos sendo transmitidos.

Uma coisa são as características e a natureza pecaminosa impregnada na existência humana através da queda de Adão. Outra coisa são os pecados individuais.

Todos pecaram porque seus representantes (Adão e Eva) pecaram. A partir disso, todos nascem pecadores. Isso
não significa que:

  • Você cometeu o mesmo pecado específico de Adão;
  • Você cometeu os mesmos pecados específicos de seu pai ou mãe.

Significa que:

  • Você é pecador como Adão foi;
  • Você é pecador como seu pai e mãe são;
  • Mas eles cometeram os pecados deles, e você comete seus próprios pecados.

Existe essa relação entre coisas que herdamos dos nossos pais e ancestrais (natureza, características, tendências), e o pecado também está incluído nessa herança.

O Caso de Adão como Criacionista

Uma observação importante: se defendemos alguma aplicação do criacionismo, seria exclusivamente no caso de Adão.

Pela própria formação dele – Deus formando o corpo do pó da terra e soprando nas narinas o fôlego de vida – essa alma/espírito surgiu conforme o relato de Gênesis sobre a criação do homem.

O primeiro homem, o primeiro ser humano que surgiu, teve esse processo criacionista direto: Deus formou o corpo, Deus soprou, tornou-se alma vivente.

No caso de Eva, já foi totalmente diferente, vindo de Adão. E a partir da primeira criança que nasceu da relação entre Adão e Eva, já não compartilha dessa situação criacionista direta.

Portanto, podemos afirmar que Adão foi o único que pode ser encaixado nesse modelo criacionista direto. O restante da humanidade segue o padrão traducianista.

Unidade da Natureza Humana

Quando falamos que o homem é corpo e alma (ou corpo, alma e espírito), isso forma uma entidade unificada, uma pessoa completa.

Assim como, quando falamos de Cristo, dizemos que Ele é Deus-homem (duas naturezas, não duas entidades), não existe Jesus-Deus separado de Jesus-homem. Jesus é o Deus-homem.

Da mesma forma, o homem possui elemento material e imaterial, mas não podemos falar de duas entidades separadas (homem-alma separado de homem-corpo).

É homem completo – uma pessoa que carrega tanto aspectos físicos quanto imateriais, incluindo a herança de seus ancestrais.

Conclusão Sobre Traducianismo

Esta é a visão apoiada por muitos reformados e luteranos. O traducianismo trata o homem como uma raça unificada, não como um grupo de indivíduos desconectados. O efeito que ocorreu na raça (a queda) se propaga para todos os descendentes.

A reprodução propaga a espécie humana completa – corpo, alma e espírito – conforme Deus estabeleceu nos processos naturais desde a criação.

Reflexões Finais

Independentemente de apoiarmos a visão dicotomista ou tricotomista, o fato é que todos pecamos diante de Deus (Rm 5:12). Mas felizmente, através de Cristo, somos redimidos e justificados, e todo o nosso ser será plenamente restaurado no retorno do nosso Senhor.

1Co 15:21-22 – “Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados.”

Pontos Principais a Recordar

  1. A Criação Especial do Homem: Diferentemente dos animais, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, com capacidades únicas de relacionamento com o Criador;
  2. Material e Imaterial: Tanto dicotomistas quanto tricotomistas concordam que o homem possui aspectos físicos e espirituais. A diferença está na interpretação da parte imaterial;
  3. Unidade do Ser: O homem é uma pessoa completa, não partes separadas que funcionam independentemente. Corpo e alma/espírito estão intrinsecamente unidos;
  4. O Pecado Afeta o Ser Todo: A queda corrompeu toda a natureza humana – não apenas o corpo ou apenas a alma, mas o ser humano em sua totalidade;
  5. Redenção Completa em Cristo: A salvação em Cristo não é apenas espiritual, mas envolve a restauração completa do ser humano, incluindo a ressurreição do corpo;
  6. Respeito às Diferentes Visões: Tanto a dicotomia quanto a tricotomia são posições defendidas por cristãos ortodoxos comprometidos com as Escrituras. O importante é que ambas as visões afirmam verdades essenciais sobre a natureza humana e a obra redentora de Cristo.

Fontes

  • Berkhof, Louis – Teologia Sistemática 4ª Edição (Segunda Parte – A Doutrina do Homem com Relação a Deus, II. A Natureza Essencial do Homem, B. A Origem da Alma no Indivíduo / Pg. 181-185) / ISBN 9788576224624
  • Strong, Augustus Hopkins – Teologia Sistemática 3ª Edição, Volume 2, Parte V, Capítulo I (Antropologia, ou Doutrina do Homem / Pg. 869-891) / ISBN 9788577420100
  • Pearlman, Myer – Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, 3ª Edição, Capítulo 4 (O Homem, Pg. 101-121) / ISBN 9788573671445

Deixe um comentário